Voltar ao acervo
Contos e resenhas

Resenha crítica: Torto Arado, de Itamar Vieira Junior

Uma leitura de Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, sobre terra, memória, identidade, resistência e as marcas sociais e históricas do Brasil.

Por João Carlos Corrêa
Ilustração editorial de um arado sobre a terra, com raízes e uma muda, acompanhada do título A terra é memória, identidade e resistência

Torto Arado, escrito por Itamar Vieira Junior, é uma obra que se destaca não apenas pela sua narrativa envolvente, mas também pela profundidade com que aborda questões sociais e históricas do Brasil. Publicado pela editora Leya em 2018, o livro rapidamente conquistou leitores e críticos, consolidando-se como uma peça fundamental da literatura contemporânea brasileira.

A narrativa é centrada na vida de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, que vivem em uma comunidade rural no sertão baiano. A história é marcada por um incidente traumático na infância das irmãs, que acaba moldando suas vidas de maneiras profundas e inesperadas. A partir desse ponto, o autor explora temas como a luta pela terra, a herança cultural afro-brasileira e as injustiças sociais que permeiam a vida dos trabalhadores rurais.

O livro é dividido em três partes: “Fio de Corte”, “Torto Arado” e “Rio de Sangue”. Cada uma dessas seções aprofunda a complexidade das relações humanas e sociais, revelando camadas de opressão e resistência. A estrutura narrativa alterna entre o presente e o passado, revelando gradualmente a trajetória das personagens e os segredos que marcam suas vidas. Essa construção permite ao leitor compreender as motivações e os traumas que moldam as ações e as escolhas de Bibiana e Belonísia.

Itamar Vieira Junior utiliza uma linguagem rica e poética, que captura a essência do sertão e a dureza da vida no campo. A prosa é marcada por descrições vívidas e por uma sensibilidade que torna os personagens extremamente humanos e palpáveis. A linguagem, ao mesmo tempo poética e visceral, reflete a beleza e a dureza do sertão e demonstra o conhecimento do autor sobre a região e suas tradições.

Os personagens são complexos e bem desenvolvidos. Bibiana é forte e determinada, simbolizando a resistência e a luta pelos direitos dos trabalhadores rurais. Belonísia, após o acidente, perde a capacidade de falar, mas desenvolve uma forma singular de se comunicar e de se conectar com o mundo ao seu redor. Outros personagens, como Severo e Tobias, também contribuem para a construção de um panorama social e cultural rico e diversificado.

Um dos aspectos mais notáveis de Torto Arado é sua crítica social. Itamar Vieira Junior aborda a escravidão, o racismo estrutural, a exploração dos trabalhadores rurais e a resistência das comunidades quilombolas. A obra traz reflexões sobre a formação da identidade brasileira e as cicatrizes deixadas pela escravidão, sem reduzir essas questões a simplificações. Através da história das irmãs, o autor denuncia injustiças históricas e contemporâneas e celebra a resiliência e a força das comunidades marginalizadas.

A história se passa na fictícia Água Negra, uma fazenda no sertão da Bahia, e gira em torno das irmãs Bibiana e Belonísia. Desde a infância, as duas compartilham um vínculo profundo, intensificado pelo trágico acidente que muda suas vidas. A trama aborda a luta pela terra, a resistência cultural e a busca por identidade, permeadas por uma atmosfera de realismo mágico. A relação entre as irmãs é o fio condutor da narrativa, revelando a força dos laços familiares e a importância da solidariedade diante das adversidades.

A obra também se destaca por sua dimensão histórica e social, trazendo à tona vozes e histórias muitas vezes esquecidas. A relação dos personagens com a terra é apresentada como elemento de identidade e sobrevivência; as tradições dos descendentes de escravizados aparecem como formas de resistência e afirmação; e a busca por pertencimento atravessa personagens que lutam para encontrar seu lugar em um mundo que frequentemente os marginaliza.

Torto Arado é uma obra poderosa e necessária, que oferece uma visão profunda e sensível da realidade brasileira. Itamar Vieira Junior demonstra domínio da narrativa e capacidade de transformar histórias individuais em reflexões universais sobre a condição humana. Ao dar voz a personagens muitas vezes invisibilizados na literatura brasileira, o livro cumpre um papel fundamental de representatividade e denúncia social.

O desfecho é impactante e reflexivo, levantando questões sobre as cicatrizes históricas e sociais do Brasil e sobre a importância da resistência e da esperança diante da opressão. O romance mergulha na realidade dura e poética do sertão brasileiro e convida o leitor a olhar para as raízes do país e a enfrentar as feridas ainda abertas em nossa sociedade.

Torto Arado é uma leitura indispensável para quem deseja compreender melhor as complexidades sociais e históricas do Brasil. É uma narrativa de luta, amor e resiliência, com personagens marcantes, temas relevantes e linguagem cativante. O romance se firma como uma contribuição valiosa para a literatura brasileira contemporânea e como uma obra que pode deixar uma marca duradoura em seus leitores.

Referência bibliográfica

Vieira Junior, Itamar. Torto Arado. Leya, 2018.

Autor

João Carlos Corrêa

Pesquisador da USP e do IDP, gestor e jornalista cultural.

Conheça a trajetória