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Coluna de opinião

O melhor espelho de Cuba tem casa em São Paulo

Duas instituições criadas para a integração latino-americana se observam através de um espelho atlântico de memória, arquitetura e missão pública.

Por João Carlos Corrêa
Ilustração de João Carlos Corrêa ao lado de um interlocutor, com o título O melhor espelho de Cuba tem casa em São Paulo.

Estava de férias em Havana, Cuba, em abril de 2025, quando atravessei o portão da Casa de las Américas. Fui em visita de cortesia, orquestrada antecipadamente pelo querido amigo, o embaixador Benigno Pérez, cônsul-geral de Cuba em São Paulo, e saí de lá com a certeza de ter encontrado rico material de pesquisa.

Jaime Gómez Triana, vice-presidente da instituição fundada por Haydée Santamaría em 1959, gentilmente me abriu as portas da Casa num feriado, el Viernes Santo. Trocamos experiências institucionais, pois na época eu ocupava o cargo de diretor de atividades culturais da Fundação Memorial da América Latina, em São Paulo, e também falamos de curiosidades de nossos países. Foi uma boa e prazerosa conversa.

Jaime, de um jeito muito carinhoso com nosso país, comentou que o Brasil fica a um oceano de distância e fala outra língua, e ainda assim os cubanos o sentem próximo, porque uma história comum nos une, que versa sobre a escravidão africana, a raiz indígena, uma ancestralidade partilhada nas duas margens do Atlântico. Dessa proximidade tirou a frase que desde então não me deixa:

Sempre dizemos que o Memorial é como um espelho no qual melhor nos vemos quando olhamos, a partir da nossa instituição, para o Brasil, afirmou.

Cuba se enxerga melhor quando olha para o Brasil, e esse olhar passa por um conjunto monumental em São Paulo, desenhado por Oscar Niemeyer para abrigar a integração latino-americana, com programa cultural idealizado por Darcy Ribeiro. A metáfora do espelho diz muito da nossa relação, e foi difícil assimilar naquele momento toda a complexidade que aquela simples frase carregava. Como um bom vinho, o conceito acabou encorpando com o tempo.

Há testemunhos da passagem de Darcy por Havana antes da concepção do Memorial, e imagino que a Casa ainda guarde esses registros. Vou checar isso pessoalmente em minha próxima visita. Darcy percorreu muitos lugares em busca de referências para aquela obra, e a Casa de las Américas com certeza foi um deles.

Outros brasileiros se inspiraram naquele espaço icônico de Havana. Antonio Candido e Antonio Callado circularam pelos mesmos corredores, e a Casa deixou marca no que cada um produziu. No caso de Darcy, a marca reaparece no Memorial, inaugurado em 1989, uma inflexão vinda do Caribe, oferecida por uma instituição que já carregava a ambição de constituir um cânone continental.

A inspiração tem mão dupla. A Casa premiou Chico Buarque, jurado de seu prêmio literário em 1978, e editou seus romances em espanhol. Em abril de 2026, a convite do amigo Silvio Rodríguez, Chico voltou à Casa depois de mais de trinta anos. Do lado de cá, o Memorial recebeu Pablo Milanés, voz maior da Nueva Trova, no Auditório Simón Bolívar, e viu Laura Alonso dirigir o Cuballet no Lago dos Cisnes pelo método cubano. O espelho reflete nos dois sentidos.

O primeiro volume da coleção de clássicos da Casa, a lista com que a instituição fixou a referência da literatura latino-americana e caribenha, é Memórias Póstumas de Brás Cubas, escrito em português. Gómez Triana trata o gesto como marco deliberado, um modo de dar prioridade ao gigante cultural que o Brasil representa e que a região tantas vezes contorna.

Maria Lígia Coelho Prado, professora emérita da USP, formulou o problema com precisão e desnudou um Brasil que é, e ao mesmo tempo não é, América Latina. Afirma-se latino-americano em manifestações políticas variadas e, em outros momentos, marca distância do mundo hispano-americano. Numa época em que muitos historiadores já consideram a comparação um recurso superado, ela insiste que comparar o Brasil com seus vizinhos, sem parar nas fronteiras de cada país, ajuda a ver o que os une e o que os separa. Basta não tratar nenhum como régua para medir os outros, ensina.

Aplico essa lição às duas instituições que hoje constituem meu objeto de pesquisa acadêmica no Prolam, o programa de pós-graduação em Integração da América Latina da USP. Memorial e Casa de las Américas foram criados por decisão de Estado para que os latino-americanos se reconhecessem uns nos outros. Aí está a unidade de problema que os aproxima. Em cada um deles, arquitetura, memória e missão de integração regional se condensam numa expectativa pública que sobrevive às oscilações da programação anual. São o que venho chamando de equipamentos culturais emblemáticos, categoria que exige atributos sobre os quais venho me debruçando.

Interessa-me sobretudo o que o Memorial e a Casa ensinam a ver. Quero investigar como as duas dão ao visitante ferramentas para interpretar o continente por conta própria, para desconfiar das imagens fáceis que um país constrói do outro. É por esse ângulo, ainda em construção, que pretendo observá-las, e a ele voltarei com vocês em outro momento.

A Casa conserva o programa de estudos de culturas originárias, o Centro de Estudos do Caribe, os colóquios, os prêmios, as revistas. O Memorial conserva a Biblioteca Latino-Americana, o acervo de arte popular e o Salão de Atos. O que essas casas guardam devia bastar para que o capital simbólico orientasse a forma de geri-las.

Já distante do cargo executivo que ocupava no Memorial, escrevo como mestrando em Integração da América Latina, e a troca de cadeira muda o que se vê e acaba abrindo caminhos que o foco na gestão não permitia enxergar. Embalado pelo que nos ensina Maria Lígia, agora releio aquela conversa de férias como fonte.

A Casa recebeu Darcy antes de o conjunto arquitetônico do Memorial existir, e as duas seguem se olhando, com trânsito documentado de gente e de ideias, num espelho atlântico décadas depois. A historiadora deixa aberta a porta para que as histórias conectadas de duas casas convivam com os problemas que a comparação sabe iluminar. Este é um deles, e a pesquisa apenas começa.

Autor

João Carlos Corrêa

Pesquisador da USP e do IDP, gestor e jornalista cultural.

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