Moda, Política e Memória Material: Tecendo Resistências e Identidades
Uma reflexão sobre moda, política, memória material, identidade e sustentabilidade a partir das obras de Djurdja Bartlett e Peter Stallybrass.

Das passarelas às ruas, das casas de penhores aos palácios presidenciais, as roupas têm sido silenciosas, mas poderosas narradoras da história humana. Nesse contexto, duas obras fundamentais se destacam ao explorar a fascinante interseção entre moda, política e memória material: “Fashion and Politics”, organizado por Djurdja Bartlett (Yale University Press, 2019), e “O Casaco de Marx: roupas, memória, dor”, de Peter Stallybrass (Autêntica Editora, 2008).
Enquanto Bartlett e seus colaboradores mergulham em uma ampla gama de exemplos históricos e contemporâneos da relação entre moda e política, Stallybrass utiliza o casaco de Karl Marx como ponto de partida para uma profunda reflexão sobre memória, materialidade e classe no contexto do capitalismo.
Stallybrass argumenta que as roupas são muito mais do que meros objetos: são repositórios de memória e identidade. “As roupas recebem a marca humana”, escreve ele, destacando como as peças de vestuário absorvem as histórias e experiências de quem as usa (Stallybrass, 2008, p. 14). Esta perspectiva adiciona uma camada de profundidade à análise de Bartlett sobre o poder simbólico das roupas em contextos políticos.
Em contraponto, enquanto Stallybrass mergulha nas profundezas da memória individual, Bartlett expande o olhar para a arena pública, onde as roupas se tornam bandeiras ideológicas. O estudo de Bartlett destaca como ícones de vestuário, como o terno Mao e a boina de Che Guevara, transcenderam sua função original para se tornarem símbolos de resistência e ideologia. Por outro lado, Stallybrass usa o casaco de Marx para examinar as complexas relações entre pessoas e objetos no capitalismo. Ele revela como Marx, ironicamente, dependia da penhora de seu próprio casaco para sobreviver, ilustrando a tensão entre crítica e participação no sistema capitalista.
Ambas as obras exploram o papel da moda na formação de identidades e na luta de classes. Bartlett examina como o qipao na China dos anos 1930 refletia mudanças sociais, enquanto Stallybrass discute como as roupas eram centrais para a construção da identidade de classe no século XIX. “Estar sem dinheiro significava ser forçado a desnudar o corpo. Ter dinheiro significava tornar a vestir o corpo”, observa Stallybrass (2008, p. 79).
A tensão entre moda e ideologias socialistas e comunistas é um tema comum em ambos os textos. Bartlett mostra como a moda gradualmente encontrou seu espaço nos regimes socialistas, enquanto Stallybrass argumenta que Marx, em sua crítica ao fetichismo da mercadoria, paradoxalmente reconhecia o poder dos objetos na vida das pessoas.
Stallybrass também traz à tona a importância das casas de penhores na vida da classe trabalhadora, um aspecto frequentemente negligenciado nos estudos sobre moda e política. Ele revela como o ciclo de penhorar e resgatar roupas era uma parte crucial da economia doméstica dos pobres, incluindo a família Marx.
Ambos os autores abordam questões contemporâneas. Bartlett discute a apropriação de símbolos políticos pela indústria da moda e o debate sobre fast fashion, enquanto Stallybrass nos convida a repensar nossa relação com os objetos em uma era de consumo excessivo.
Juntas, estas obras oferecem uma perspectiva rica e multifacetada sobre a moda, convidando-nos a olhar além das passarelas e ver as roupas como um texto social complexo. Elas nos lembram que, como afirmou Franca Sozzani, ex-diretora da Vogue Itália, citada por Bartlett, “A moda não é realmente sobre roupas. É sobre a vida.”
Essa análise aprofundada não apenas revela o potencial transformador da moda, mas também nos convida a refletir sobre nossa própria relação com as roupas e os objetos que nos cercam, em um mundo cada vez mais definido pelo consumo e pela mercantilização. Como Stallybrass eloquentemente coloca: “A mágica da roupa está no fato de que ela nos recebe: recebe nosso cheiro, nosso suor; recebe até mesmo nossa forma” (2008, p. 13).
Em um mundo onde a fast fashion e o consumismo desenfreado ameaçam desconectar-nos da verdadeira essência das roupas, as obras de Bartlett e Stallybrass nos convidam a redescobrir o poder transformador da moda. Elas nos lembram que cada peça de roupa que vestimos é mais do que um simples tecido — é um capítulo de nossa história pessoal e coletiva, um manifesto silencioso de nossas crenças e uma ponte entre o passado e o futuro.
Referências
Bartlett, D. (Ed.). (2019). Fashion and Politics. Yale University Press.
Stallybrass, P. (2008). O Casaco de Marx: roupas, memória, dor. Autêntica Editora.
João Carlos Corrêa
Pesquisador da USP e do IDP, gestor e jornalista cultural.
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